Os Tabuleiros voltaram a sair à rua

Carregueiros renova a fé e a memória de uma tradição que resiste ao tempo.

O cortejo voltou a avançar pelas ruas estreitas de Carregueiros como se o tempo ali tivesse outra cadência. No domingo de Pentecostes, 24 de maio, a aldeia do concelho de Tomar cumpriu mais um capítulo de uma tradição que atravessa gerações: os Tabuleiros do Divino Espírito Santo, aqui feitos com flores naturais, erguidos por 32 pares e acompanhados por seis tabuleiros pequenos, perante largas centenas de visitantes.

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Imagem: Orlando Oliveira

À frente seguem os gaiteiros, o pároco, o pendão, os elementos da confraria e a coroa. A banda filarmónica Nabantina e os devotos completam o cortejo que, depois da missa, avança pelas ruas estreitas num gesto que combina fé, identidade e continuidade. No final, a bênção do pão e a sua distribuição a quem quiser reforçam a ideia de abundância partilhada que marca esta celebração.

A segunda feira mantém o espírito comunitário com a oferta de tremoços e vinho aos irmãos da Confraria do Divino Espírito Santo às 18h00 e a entrega da coroa e das alfaias religiosas ao novo juiz às 19h00, num momento que simboliza a passagem de responsabilidade e a preservação da tradição.

A singularidade de Carregueiros está no uso de flores verdadeiras para enfeitar os tabuleiros todos os anos, uma diferença marcante face à festa maior de Tomar, que regressa apenas em 2027 e onde a ornamentação é feita em papel. Aqui, no interior do país, a tradição mantém-se anual, viva, manual e transmitida de geração em geração como um património que não se exibe apenas, cultiva-se.

A história desta celebração remonta às práticas medievais do culto do Espírito Santo, espalhadas por várias regiões do país, mas que no Médio Tejo ganharam expressão própria. Em Carregueiros, o cortejo é mais do que um ritual religioso. É um gesto de comunidade, uma afirmação de identidade rural e a prova de que certas tradições resistem porque continuam a fazer sentido. Este domingo voltou a confirmá-lo. Os tabuleiros saíram à rua e a aldeia voltou a cumprir a sua memória. 

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