A história de coragem de Anca Martins
Notícias de um fidalgo do Beco de há 400 anos

Notícias de um fidalgo do Beco de há 400 anos

A história de Luís Cotrim de Sousa ganha nova luz com os 400 anos da carta de armas concedida em 1623, documento que marcou a identidade de várias famílias do concelho.

Completaram-se, em 2023, 400 anos sobre a concessão da carta de armas ao Fidalgo Luís Cotrim de Sousa e Vasconcellos, que viveu inicialmente em Ribelas e mais tarde no Beco.
Para comemorar esta efeméride transcrevemos na íntegra o texto da sua carta de armas o qual esteve na origem de duas das pedras de armas mais antigas que existem no nosso concelho.
De Luís Cotrim de Sousa e Vasconcellos, que neste documento surge apenas como Luís Cotrim de Sousa descendem hoje várias famílias da região e em particular do nosso concelho, ainda que muitas o desconheçam.
Felizmente, do século XX para cá, foi possível localizar a pedra de armas do seu antigo solar e a da sua sepultura cujas imagens aqui reproduzimos.
Para quem tiver curiosidade e interesse em conhecer o texto fica aqui a sua reprodução.
Paulo Alcobia Neves D.R
Brasão de Armas concedido a Luís Cotrim de Sousa (1623)
Portugal principal rei de armas n’estes reinos e senhorios de Portugal, pelo muito alto e poderoso D. Filipe, nosso senhor, rei de Portugal e dos Algarves, d’aquém e d’além mar em África, senhor da Guiné, e da conquista, navegação, comércio de Etiópia, Arábia, Pérsia e da Índia, etc.
Faço saber aos que esta minha carta e certidão de brasão de armas de nobreza, digna de fé e crença virem, que por parte de Luís Cotrim de Sousa, juiz dos órfãos na Vila de Dornes, me foi requerido que ele era filho de Filipe Mendes de Vasconcellos, e de sua mulher, Ana Dias Cotrim, de legítimo matrimónio, sem bastardia, naturais do lugar do Beco, e que seus antepassados foram todos fidalgos de cota de armas e solar, e das gerações e troncos aqui nomeados, Cotrins, Sousas, e Cannas, e Vasconcellos, e que os ditos seus antepassados foram sempre capitães de gente de guerra na dita Vila e lugar, e os principais d’eles têm suas armas e brasões d’elas, e em seus portais, e as têm de muito tempo e anos imemoriais, tendo seus cavalos e criados, com que sempre se serviram, e fazendo muitos e grandes serviços aos reis destes reinos, com suas pessoas, e fazendas; e que o tio do suplicante era tio de sua mãe, e foi capitão em Tânger, o qual suplicante é dos troncos das ditas gerações, que nestes reinos de Portugal são fidalgos, e por tais estão tidos e havidos, e assim ele suplicante se trata outrosim à lei da nobreza, limpa e abastadamente como a ele convém, e tudo constava do instrumento publico, passado pela chancelaria de sua majestade, d’esta cidade de Lisboa, que me apresentou, e que pela memória dos seus antecessores se não perder, me requeria da parte do dito senhor lhe passasse, e desse as armas de Cotrins e Vasconcellos, as quais são de fidalgos, e por tais lhe pertencem, e com elas lhe passasse sua carta em forma: e visto por mim seu requerimento e instrumento, que lhe foi passado em forma pelo Doutor Gonçalo Leitão de Vasconcellos, do desembargo de elrei nosso senhor, e seu corregedor com alçada dos feitos e causas cíveis, n’esta cidade de Lisboa e sua correição, e Mateus Caldeira o fez, por Rodrigo Esteves Fialho, escrivão da correição do civel desta cidade de Lisboa, no ofício de que é proprietário Manuel Guterres Rodovalho, o qual fica em meu poder, a que em tudo, e por tudo me reporto: provi, e busquei os livros da nobreza e fidalguia destes reinos, e neles achei registradas as armas que pertencem ao dito Luís Cotrim de Sousa, das gerações, como neste escudo lh’as dou divisadas, a saber: o escudo partido em pala, o primeiro dos Cotrins enxaquetado de azul e ouro de seis peças, em faixa, e ao segundo dos Vasconcellos, de preto, e três faixas reviradas, e contraregradas de prata e vermelho, e por diferença uma brica de azul com cachim de ouro no meio da brica, e por timbre o dos Cotrins três penachos com chaparia de ouro em roquete. Elmo de prata aberto, guarnecido de ouro, paquife dos metais e cores das armas. E por assim lhe pertencer, e as dever trazer, e delas usar o dito Luís Cotrim de Sousa, e seus antepassados, assim como as trouxeram e delas usaram os nobres, e antigos fidalgos costumaram sempre trazer em o tempo dos reis, meus antecessores, e com elas possa entrar em batalhas, campos, duelos, rectos, escaramuças, e desafios, e exercitar todos os outros atos lícitos de guerra e paz, e assim as possa trazer em seus reposteiros, firmaes, anéis, sinetes e divisas, e as pôr em suas casas e edifícios, e deixá-las pôr sobre a sua própria sepultura e se servir e aproveitar delas em tudo, e por tudo, como à sua nobreza convém: pelo que requeiro a todos os corregedores, provedores, ouvidores, juízes, alcaides, meirinhos, e a todas as mais justiças de sua majestade, da parte do dito senhor, e por bem do ofício da nobreza que tenho, e em especial mando aos oficiais da nobreza, reis de armas, arautos, passavantes, que ora são, e ao diante forem, como juiz que sou dela, o cumpram e guardem, e façam inteiramente cumprir assim, e da maneira que nesta certidão de brasão de ramas se contém, passado com todos os privilégios, graças, honras, liberdades e mercês que hão e devem haver os fidalgos de cota de armas, e solar da nobre e antiga linhagem, como todos sempre usaram; e por verdade, e em fé, e testemunho dela, vai por mim assinada. Dada em esta cidade de Lisboa, aos 2 de Junho do ano do nascimento de nosso senhor Jesus Cristo de 1623 anos. Cristóvão Lopes Galvão, escrivão da nobreza por El rei nosso senhor, nestes reinos de Portugal, o fiz escrever. – Portugal principal rei de armas.
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