A instalação de um campo de tiro em Alter do Chão expõe a velha lógica centralista que trata o interior como território disponível, ignorando história, identidade e a voz de quem lá vive. Leia aqui a opinião de Salvador Sacadura.
Existe, nos corredores do poder em Lisboa, uma teoria geográfica singular que merece ser explicada ao grande público. Trata-se da seguinte: o Alentejo é um lugar muito grande, muito plano e muito pouco habitado por pessoas com opiniões relevantes. É, portanto, o local ideal para colocar tudo aquilo que Lisboa precisa mas que Lisboa não quer perto de si.
Muito propício para lixeiras e/ou parques de resíduos industriais. E agora, numa epifania burocrática de requintada elegância, um campo de tiro de sete mil e quinhentos hectares. Sete mil e quinhentos. Para quem tenha dificuldade em visualizar a escala: é maior do que várias concelhos somados. É uma área que um homem a cavalo demoraria um dia inteiro a percorrer – e, curiosamente, cavalos é precisamente aquilo que Alter do Chão tem. Cavalos lusitanos, de raça pura, que desde o século XVIII pastam naquelas planícies com a dignidade silenciosa de quem sabe que a terra tem memória. O Governo, naturalmente, tem outros planos para essa região que não contemplam essa memória.
O raciocínio dos decisores políticos é, convenhamos, de uma coerência cristalina. O novo aeroporto será construído em Alcochete. O campo de tiro da Força Aérea está em Alcochete. Logo, o campo de tiro tem de ir para outro sítio. Ora, “outro sítio” não pode ser perto de Lisboa, porque perto de Lisboa há pessoas que votam e que fazem barulho e que têm advogados. “Outro sítio” tem de ser, necessariamente, num lugar onde as pessoas façam menos barulho.
O Alentejo apresenta-se assim, uma vez mais, como a solução perfeita.
Que haja ali agricultores com terras trabalhadas há gerações, que haja projectos de regadio, que haja potencial agrícola, que haja uma coudelaria fundada por D. João V que é património de interesse histórico, que haja um tecido rural frágil que o país passou décadas a tentar não deixar morrer de vez – tudo isso são, na linguagem técnica da capital, “condicionalismos a avaliar em sede própria”. O que significa, em português corrente, que serão avaliados depois de a decisão já estar tomada.
Quanto ao Presidente da Câmara Municipal de Alter do Chão, confrontado com a hipótese de consultar a população sobre um projecto que vai transformar para sempre a vida do concelho que governa, decidiu partilhar publicamente o seu pensamento mais íntimo. Em plena Assembleia Municipal – portanto, no sítio exacto onde a democracia local se supõe exercida – declarou que não fazia sentido consultar os munícipes porque estes não têm capacidade para entender o que está em causa.
Leia-se pois a frase que o autarca de Alter proferiu em Assembleia Municipal, devagar, para que a beleza da frase possa ser apreciada em toda a sua extensão.
“Quais são os membros da população que estão habilitados a pronunciar-se com rigor sobre a instalação do campo de tiro?”
Trata-se, é preciso reconhecer, de uma posição corajosa. Há séculos que as democracias ocidentais se debatem com a questão de saber se o povo é verdadeiramente apto para se governar. Platão tinha dúvidas. Churchill tinha dúvidas. Agora, finalmente, o Presidente da Câmara de Alter do Chão resolveu a questão: não é. Pelo menos não em Alter do Chão. Pelo menos não neste assunto específico que, por coincidência, lhes diz diretamente respeito.
A lógica é deliciosa. Os agricultores que conhecem aquela terra palmo a palmo, que sabem como o vento atravessa as planícies, que conhecem os aquíferos e as linhas de água, esses não têm capacidade. Os funcionários de um ministério em Lisboa que nunca foram a Alter do Chão, esses têm. É a divisão natural do trabalho intelectual num país bem governado.
Há uma palavra que aparece sempre nestas decisões. Uma palavra que os planeadores usam com a naturalidade de quem não percebe que está a insultar meio país. Essa palavra é “interior”.
O interior. Como se fosse uma zona de amortecimento entre a civilização e o nada. Como se as pessoas que lá vivem fossem habitantes provisórios de um território à espera de uso mais útil. Como se a planície alentejana, com a sua luz particular que os pintores tentam há séculos capturar e nunca conseguem de todo, fosse apenas espaço vazio à espera de uma decisão de Lisboa.
Alter do Chão tem três mil anos de história documentada. Os romanos passaram por ali e ficaram tempo suficiente para deixar vestígios. Os mouros também. D. João V mandou construir a Coudelaria porque percebeu que aquele território e aquela raça equina eram uma coisa única no mundo. O Alentejo inventou um modo de estar no mundo – pausado, hospitaleiro, ligado à terra com uma seriedade que as cidades já esqueceram – que vale infinitamente mais do que qualquer utilidade que Lisboa lhe possa atribuir.
Não é um descampado. Nunca foi. É apenas um lugar que Lisboa olha de longe e que, precisamente por ser longe, trata como se fosse seu.
O mais curioso é que, ao tentar justificar o projeto com argumentos de desenvolvimento, se ignora aquilo que verdadeiramente sustenta regiões como Alter: autenticidade, identidade e uma certa resistência ao ruído do modernidade. O desenvolvimento, quando chega sob a forma de imposição, costuma ter o mau hábito de destruir precisamente aquilo que prometia valorizar.
Talvez, no fim, isto tudo se resuma a uma incapacidade de reconhecer o valor do silêncio. O Alentejo não grita, não protesta em excesso, não se impõe. Por isso mesmo, é tratado como se não tivesse voz.
Instalar ali um campo de tiro não é apenas uma decisão técnica ou estratégica. É um gesto que simboliza a decadência das nossas decisões e dos nossos decisores. É um gesto de desconsideração. Como se, perante um dos poucos lugares do país onde ainda se pode ouvir o tempo, alguém tivesse decidido que em nome do “progresso” mais vale ouvir-se barulho.
