Praia fluvial permanece vedada entre conflitos privados, degradação visível e um passadiço que nunca avançou.
A praia fluvial de Alverangel, no concelho de Tomar, permanece inacessível ao público há quase dois anos, depois de um proprietário ter fechado com um portão o caminho que, durante décadas, serviu de acesso aos banhistas. O caso voltou a ser tema na reunião de câmara de 4 de Maio, reacendendo críticas e expondo um impasse jurídico que tem deixado um dos espaços naturais mais procurados da região entregue ao abandono.
Maria da Luz Lopes, munícipe que já tinha denunciado a situação em 2024, regressou ao executivo para descrever um cenário que classificou como “destruição total”. Segundo relatou, a margem esquerda está irreconhecível, há árvores cortadas e esgotos de uma nova construção a desaguarem no rio. Para a munícipe, Alverangel era um espaço de lazer essencial para famílias e visitantes de várias zonas do país, hoje transformado num local degradado e inacessível. “Os turistas quando vêm a Tomar, o que têm? Têm os monumentos e não têm mais nada”, lamentou.
O presidente da Câmara de Tomar, Tiago Carrão, reconheceu a complexidade do processo e sublinhou que o município está limitado pela natureza privada dos terrenos. O caminho foi declarado privado por decisão judicial após décadas de litígio, o que impede a intervenção direta da autarquia. Ainda assim, o autarca admitiu que o espaço “é bom demais para ficar vedado ao acesso público” e mostrou abertura para retomar contactos com os proprietários.
O vereador do PS Hugo Cristóvão, anterior presidente da câmara, recordou que o município chegou a negociar com o proprietário junto ao rio e adjudicou a construção de um passadiço que garantiria o acesso público. No entanto, quando a obra estava prestes a avançar, surgiu uma segunda proprietária com novas exigências, inviabilizando o projeto. “Posso reconhecer que nos deixámos levar pela ideia de que só existia um proprietário”, afirmou. O projeto do passadiço continua preparado, e o vereador acredita que as negociações poderão ser retomadas.
O caso ganhou maior dimensão pública quando uma família do distrito de Lisboa adquiriu os terrenos que dão acesso à praia e colocou uma corrente a impedir a passagem. A situação motivou uma petição com centenas de assinaturas e levou o município a ponderar a expropriação caso não fosse possível chegar a acordo. Dois anos depois, o impasse mantém-se: a praia continua fechada, o espaço degrada-se e a população aguarda uma solução que devolva Alverangel ao uso público.
