A artista que transformou a Barquinha num mundo colorido

Mona Martins nasceu Simone, em São Paulo, mas o diminutivo carinhoso que ouviu da avó ainda antes de nascer tornou‑se identidade, assinatura e marca artística. Quase cinco décadas depois, o nome Mona é sinónimo de imaginação sem fronteiras, técnica apurada e uma capacidade rara de transformar ideias em matéria. O seu percurso começou entre fios coloridos que o pai eletricista levava para casa e espátulas que a mãe enfermeira trazia do hospital. Ali, entre brincadeiras de infância, foi descobrindo que criar era mais do que passatempo: era vocação.

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A adolescência trouxe-lhe a revelação definitiva. Uma professora de artes mostrou-lhe que não era preciso “vacina” para fazer algo grandioso. Bastava querer. E Mona quis. Quis tanto que desmontava brinquedos para perceber como funcionavam, que imaginava volumes onde outros viam apenas papel, que observava desenhos animados pensando não na história, mas em como se construía o castelo ao fundo. A curiosidade transformou-se em método e o método em profissão.

O Brasil foi o primeiro palco. Trabalhou no Carnaval de São Paulo, assinou carros alegóricos, figurinos e esculturas, viveu o ritmo frenético de quem cria para milhares. Mas a poesia concreta que encontrou em Portugal mudou-lhe o rumo. Primeiro Lisboa, depois Vila Nova da Barquinha, onde instalou o atelier que hoje é ponto de partida para projetos em Portugal, Alemanha, Angola, Grécia e Cabo Verde. No número 6A da Travessa Estreitinha, Mona é “parteira” de mundos: mascotes, figurinos, esculturas e cenografias que nascem das suas mãos e das de Cátia, Sílvia e Luísa, a equipa que a acompanha.

O seu universo é um desfile de personagens. O Panda das crianças cruza-se com Vasco da Gama, o Falco da PSP cumprimenta a Vita e o Bache da Kidzania, mascotes dos aeroportos de Angola e Lisboa convivem com o cão Pico do Chocapic. Há ainda trabalhos pro bono, como as mascotes criadas para a Terra dos Sonhos, e desafios improváveis, como vestir a estátua do Marquês de Pombal com a camisola do Benfica. Tudo isto feito com a mesma regra: beleza, funcionalidade e respeito pelo corpo humano que habita cada figurino.

O atelier é também lugar de toque, de pesquisa e de técnica. Mona acredita que se pode “ver com os dedos” e que cada criação exige estudo, precisão e coragem para enfrentar o erro. O impossível, para ela, é apenas o ponto de partida. E talvez seja por isso que o seu mundo cabe tão bem na Barquinha: porque é feito de poesia, simplicidade, segurança e beleza — as mesmas qualidades que diz encontrar quando vira uma esquina, toma um café ou janta com amigos na vila que escolheu para viver.

Hoje, Mona Martins é mais do que uma artista. É uma criadora de universos, uma guardiã da imaginação e um dos rostos mais vibrantes da região. O seu trabalho não é apenas visto. É sentido. E permanece.

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