Um espetáculo que coloca o público no centro da ação.
O 1.º de Maio na Nabantina não terá plateia, nem palco, nem a distância confortável a que o teatro habituou o público. O grupo Fatias de Cá regressa ao espaço com “O Con(s)certo)”, dirigido por Carlos Carvalheiro, e transforma a sala num dispositivo cénico onde quem assiste ocupa o lugar onde nunca se sentou: o centro. A banda distribui-se à volta, com músicos à frente, atrás e aos lados, enquanto os atores circulam a poucos passos, anulando qualquer separação entre quem faz e quem vê. A Nabantina, lugar de memória para várias gerações tomarenses, torna-se assim palco de um reencontro que aposta na proximidade absoluta.
Inspirado no universo de Karl Valentin, o espetáculo parte de um jogo aparentemente simples entre o conserto de um projetor e um concerto musical. Mas nada funciona como deveria. O projetor falha, a explicação não resolve, a tentativa repete-se e volta a falhar. Aqui, o erro não é escondido: é matéria teatral. Quanto mais se tenta corrigir, mais a situação se desvia, e aquilo que parecia um problema técnico transforma-se em narrativa. O público, colocado no centro, sente o desconforto e a estranheza de quando tudo insiste em correr fora do previsto.
A marca do Fatias de Cá, um teatro direto, próximo e construído a partir da relação com o espaço, encontra na Nabantina um terreno natural. O espetáculo, que estreia a 1 de maio às 21h21, não se esgota numa noite. Passa a integrar uma programação regular, com sessões mensais, como um ensaio contínuo que se recusa a terminar. Para quem conhece a sala, a mudança é simbólica: trocar o lugar habitual por um lugar onde ninguém se senta, no meio da banda, no coração do som e da ação.
No final, a questão deixa de ser se o público vai ver o espetáculo. A verdadeira pergunta é outra: estará preparado para estar lá dentro.
