Três meses depois da tempestade que devastou vários concelhos do Médio Tejo, as comunicações continuam longe de normalizadas em Mação, Tomar e Ferreira do Zêzere, alguns dos territórios mais afetados pelo mau tempo de 28 de janeiro.
No concelho de Ferreira do Zêzere, o cenário permanece crítico. O presidente da Câmara, Bruno Gomes, afirma que “mais de metade do território” continua com problemas por resolver, com falhas persistentes na rede fixa, nas comunicações móveis e no acesso à internet. Segundo o autarca, as operadoras mantêm “rede sempre com falhas” e pouca capacidade de dados móveis em várias zonas, condicionando o quotidiano da população e o funcionamento de serviços essenciais. A reposição das infraestruturas avança a um ritmo considerado insuficiente. “Vamos vendo operacionais a trabalhar, mas não têm um número suficiente. Esperava já outra robustez na capacidade de trabalho”, lamenta Bruno Gomes, duvidando que os prazos apontados para o final de abril venham a ser cumpridos.
Em Mação, o diagnóstico é ainda mais severo. O presidente da Câmara, José Fernando Martins, fala em “vergonha” e denuncia “montes de postes caídos, fios pelo chão e locais ainda sem comunicações”. O autarca acusa as operadoras de ausência total de resposta e de interlocução, sublinhando que freguesias como Cardigos e Carvoeiro continuam com falhas significativas. “A própria Proteção Civil e os Bombeiros tiveram problemas com o telefone fixo. Não fossem as comunicações móveis e estaríamos numa situação de isolamento”, alerta. Mesmo onde os serviços foram parcialmente repostos, a qualidade é considerada insuficiente. “As redes estão muito mais fracas, não permitem fazer determinadas operações. É dramático ainda aquilo que se vive aqui”, afirma, apontando para “abandono total” de infraestruturas visíveis ao longo das vias.
Na terra templária, o cenário é menos grave, mas ainda longe de estabilizado. Jorge Graça, presidente da União de Freguesias de Além da Ribeira e Pedreira, reconhece que as equipas estão no terreno e que algumas zonas já apresentam cobertura de 80% a 85%, mas sublinha que persistem “muitos casos isolados” e freguesias com recuperação lenta, como Olalhas, Casais e Alviobeira. Além das falhas nas telecomunicações, permanecem riscos associados a postes danificados e cabos baixos que voltam a ser cortados por viaturas. O autarca denuncia ainda atrasos nos apoios às populações e às instituições, referindo associações sem qualquer linha de apoio e famílias com casas danificadas ou desalojadas. “É uma situação que vai demorar meses ou até anos a ultrapassar, a este ritmo”, afirma, preocupado também com a aproximação da época de incêndios e com a grande quantidade de material florestal acumulado no terreno.
A tempestade Kristin integrou um conjunto de depressões que atingiram Portugal entre janeiro e fevereiro, provocando milhares de ocorrências, destruição de infraestruturas, cortes de energia e comunicações, inundações e prejuízos avultados. Pelo menos 19 pessoas morreram no país na sequência destes episódios. No Médio Tejo, a normalização plena das telecomunicações continua por cumprir, num processo que autarcas e populações consideram demasiado lento face à dimensão dos danos.
