A primeira viagem de comboio em Portugal aconteceu no dia 28 de outubro de 1856, partindo de Lisboa com destino ao Carregado, e ficou marcada por um conjunto de peripécias. O rei D. Pedro V, grande entusiasta do progresso, acabou por ficar em terra por se ter atrasado face à hora marcada para o arranque (16 horas), sendo obrigado a esperar pela viagem seguinte. Mas os imprevistos não se ficaram por aqui: a ainda primitiva locomotiva a vapor não tinha força suficiente para puxar todas as carruagens atreladas. A tripulação foi forçada a desengatar várias composições em plena linha, deixando pelo caminho muitos dos convidados da alta nobreza e do clero.
Para celebrar esta data histórica, o Museu Nacional Ferroviário no Entroncamento recebe no próximo sábado às 16h30 um concerto comemorativo com entrada livre. O público terá a oportunidade de presenciar a estreia absoluta da nova obra do compositor César Viana, de seu nome Pouca Terra. O prestigiado compositor já apresentou o seu trabalho em algumas das salas mais conceituadas a nível nacional e internacional, como o Teatro Camões ou a Fundação Calouste Gulbenkian, onde a Companhia Nacional de Bailado e o Ballet Gulbenkian utilizaram com regularidade as suas orquestrações.
Neste evento, a “casa da ferrovia nacional” transforma-se no palco desta nova criação musical. A obra funde a música com o teatro através da presença de um recitante (ator ou narrador), que declama textos ao ritmo da partitura. O espetáculo conta ainda com três cantores líricos e um ensemble de nove músicos, que dão vida aos instrumentos: três saxofones, dois trompetes, trombone, contrabaixo, bateria, violino e clarinete.
O espetáculo convida a uma viagem no tempo, reavivando a era em que a chegada da locomotiva simbolizava a promessa de um Portugal moderno. Como refere César Viana, a obra “chega ao comboio das nossas próprias memórias e dos nossos dias: das viagens, dos atrasos, dos encontros e desencontros, das partidas”, nascendo a inspiração de textos de épocas e naturezas muito distintas, fundindo a genialidade de autores como Eça de Queirós, Fernando Pessoa e Almeida Garrett. A estes junta-se o relato da Marquesa de Rio Maior, uma das figuras da aristocracia que viveu na primeira pessoa as atribulações dessa histórica viagem inaugural de 1856.
